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domingo, 6 de março de 2016

Começou a campanha "Globe at Night" de 2016, participe!


O Globe at Night é um projeto de ciência cidadã que conta com a contribuição da população para estimar os impactos da iluminação artificial em todo o planeta. Para cada época do ano e cada Hemisfério (Sul ou Norte), uma constelação de fácil identificação é escolhida como referência. É muito simples participar: basta contar quantas estrelas você consegue observar naquela dada área do céu e registrar suas observações no formulário próprio. São oferecidas instruções em 28 idiomas, inclusive em português. Explicações detalhadas de como executar as observações e preencher o formulário podem ser encontradas neste post.

As duas primeiras campanhas de 2016 foram realizadas entre 1 e 10 de janeiro e fevereiro. O fato é que em boa parte do Brasil, devido às chuvas de verão, é mesmo difícil termos noites de céu aberto especialmente entre novembro e fevereiro... Com o início do tempo seco, teremos mais oportunidades de participar! Vamos às datas e constelações das próximas observações para a campanha 2016:

  • Cruzeiro do Sul - 1o a 10 de março; 30 de março a 8 de abril; 29 de abril a 8 de maio; 29 de maio a 7 de junho;
  • Escorpião - 27 de junho a 6 de julho;
  • Sagitário - 28 de julho a 6 de agosto; 25 de agosto a 2 de setembro;
  • Grou - 21 a 31 de outubro; 20 a 30 de novembro;
  • Órion - 20 a 30 de dezembro.

Lembrando que as observações devem ser feitas sempre entre 20 e 22:00 h!

Atenção às datas de observação para a campanha Globe at Night 2016! Imagem obtida da página do projeto.

Resultados da campanha 2015, incluindo 23 mil observações obtidas por pessoas de 103 países. Note como participamos pouco no Brasil e ajude a mudar esta situação! Imagem obtida da página do projeto.


Esta mobilização mundial para acompanhamento a longo prazo das alterações no meio ambiente causadas pela poluição luminosa é essencial. Particularmente neste momento crítico, em que muitas cidades estão adotando a iluminação LED que, apesar de extremamente econômica do ponto de vista do consumo energético e manutenção, possui um rendimento de cor que pode trazer severas consequências negativas para a vida no planeta.

As medidas realizadas através dos aplicativos para celular Dark Sky Meter (iOS) e Loss of the Night (Android e iOS) também são incluídas na base de dados do Globe at Night. Aproveite e use o seu celular para ajudar a monitorar a poluição luminosa em todo o planeta!

Você pode acompanhar a evolução das observações através do mapa interativo, disponível neste link.


sexta-feira, 27 de março de 2015

Boa notícia: a poluição luminosa no Reino Unido parece estar diminuindo!


Uma pesquisa divulgada recentemente indica que a poluição luminosa no Reino Unido está diminuindo! Uma queda de 28% foi observada desde 1992, sendo que o brilho do céu foi calculado com base em dados obtidos por dois satélites, o Operational Linescan System (OLS) e o Visible Infrared Imaging Radiometer Suite (VIIRS), já citado em uma postagem anterior.

Segundo o trabalho, a poluição luminosa teve seu máximo em 1993 e a previsão é que, entre 2015 e 2025, ela deve cair mais 21%. A imagem abaixo mostra a redução observada até 2014, ao longo do território do Reino Unido.

Estimativa da redução da poluição luminosa, entre 1992 e 2014, ao longo do território do Reino Unido. Créditos da imagem: City A.M..

O mais surpreendente é que a pesquisa foi promovida pela Hillarys, uma empresa britânica de cortinas, persianas e afins.  Fora de propósito? Não! Existe um tipo de poluição luminosa chamada de "luz intrusa". É quando a luz pensada para um ambiente invade o outro. É o caso da iluminação da rua e da vizinhança que invade seu quarto durante a noite, comprometendo sua saúde, e a luz da sua sala que inadequadamente invade o ambiente externo enquanto você lê, conversa ou assiste televisão. Para minimizar o impacto deste tipo de poluição é fundamental utilizar cortinas e persianas adequadas. A Hillarys está agregando um importante valor social ao seus produtos ao divulgar em sua página da internet artigos explicando o que é a poluição luminosa e dando dicas para evitá-la.


A pesquisa sobre a incidência e variação da poluição luminosa no Reino Unido está sendo divulgada em uma página própria: SKYGLOW - Light Pollution & the UK’s Changing Skies (Brilho do céu - Poluição Luminosa & os céus em mudança no Reino Unido). Nela é possível interagir com um mapa e verificar o brilho do céu ao longo da região, medidos com o OLS e o VIIRS entre 1992 e 2014, e as simulações de como a situação deve evoluir até 2015. Veja exemplos nas imagens abaixo.
 

Comparação entre a quantidade de poluição luminosa no Reino Unido em diferentes épocas. De cima para baixo: dados de 1992, 2012 e simulação da situação em 2025. Captura de tela da ferramenta interativa disponível na página de divulgação da pesquisa. As áreas em vermelho indicam as maiores concentrações de iluminação inadequada.

Enquanto a poluição luminosa parece ter diminuído 28% entre 1992 e 2012, a população da região cresceu em 10%. O que pode estar acontecendo então? Uma das hipóteses é que a iluminação esteja sendo melhorada através do uso de luminárias e lâmpadas mais adequadas, que minimizam o espalhamento da luz para fora da área em que ela é necessária. Outro fator importante é que, com a migração das pessoas para as grandes cidades, a poluição luminosa aumentaria nestes locais mas lá ficaria concentrada, diminuindo a quantidade de luz em áreas mais remotas. 

Não podemos desprezar novos fatores, como a popularização das lâmpadas LED. Apesar de muito econômicas e com feixe de luz fácil de ser orientado, elas ainda são muito brancas e emitem em frequências desnecessárias para o deslocamento humano durante a noite. Assim, o mal uso da nova tecnologia, já discutido aqui, pode frustrar as previsões otimistas do trabalho liderado pela Hillarys.

Aos que duvidam da integridade das informações, o trabalho foi realizado com o suporte de vários especialistas, inclusive da International Dark Sky Association (IDA), principal organização de estudo e combate à poluição luminosa.

Neste momento estou justamente precisando comprar cortinas e persianas para o meu novo apartamento. Como consumidora, se pudesse escolher, definitivamente contrataria os serviços da Hillarys. A consciência social da empresa faz toda a diferença. Infelizmente, eles ainda não trabalham no Brasil...


 
Veja mais:
 

quarta-feira, 11 de março de 2015

A campanha "Globe at Night" completa dez anos!

Em 2015, a campanha de ciência cidadã Globe at Night está completando dez anos de atividades! É um projeto oficial do National Optical Astronomy Observatory (NOAO), instituição norte americana responsável pela operação dos telescópios ópticos em solo disponíveis aos astrônomos daquele país.

Através do Globe at Night qualquer pessoa, de qualquer lugar do planeta, pode contribuir para pesquisas sobre a incidência da poluição luminosa. Basta acompanhar as campanhas mensais, observar e contar estrelas nas constelações indicadas e enviar seus resultados para serem incluídos na base de dados. Além dos procedimentos serem muito simples e bem documentados, o "cientista cidadão" ainda tem o prazer de dedicar alguns minutos para contemplar o céu noturno!

Sem dúvida, durante estes dez anos, o Globe at Night tem coordenado a coleta de informações essenciais e que podem ser usadas em diversas análises, testemunhando o impacto da iluminação artificial no meio ambiente, nas nossas vidas e na nossa capacidade de observar as estrelas...

Outras informações sobre o Globe at Night já foram apresentados neste post. Uma explicação detalhada de como comunicar os resultados através do aplicativo web do projeto pode ser vista aqui. Este aplicativo é disponibilizado em várias línguas, inclusive em português.

Hoje, 11 de março, tem início a terceira campanha de 2015 e devemos contar quantas estrelas podemos ver na constelação do Cruzeiro do Sul. As outras datas e constelações a serem observadas no Hemisfério Sul são:


O mapa abaixo mostra os resultados de 2014, quando mais de 18 mil observações foram enviadas. Mas, por que participamos tão pouco no Brasil? Dê a sua contribuição! Todas as constelações são de fácil identificação já no início da noite! (Tudo bem, Grou é um pouco mais complicada...). A meta é conseguir 20 mil observações até o fim deste ano!


Visão geral dos resultados da campanha de 2014, quando 18506 observações foram enviadas. Note como o Brasil participa pouco, assim como outros países da América do Sul. Resultados de outros anos e em diferentes formatos podem ser encontrados nesta página.

Visando colaborar para que seja formada uma base de dados mais homogênea e completa, Christopher Kyba, do projeto e blog Loss of the Night, fez um levantamento e disponibilizou os locais de onde já foram fornecidas observações em algum momento mas, nos últimos cinco anos, ninguém se propôs a repeti-las. Assim, ficamos sem saber como a situação evoluiu naquele local. 

Kyba diz (tradução livre): "O melhor lugar para fazer uma observação e ajudar a estimar a poluição luminosa é um lugar muito perto de sua casa, onde você possa observar novamente no futuro. Mas, se  estiver disposto a viajar um ou dois quilômetros, a fim de nos ajudar a controlar a forma como a contribuição da luz artificial está mudando, você poderia nos ajudar, fazendo uma observação perto do mesmo local onde já foi feita no passado". Consulte o mapa com 5 mil locais onde as observações precisam ser novamente realizadas e veja se pode ajudar!


Imagem do blog Loss of the Night mostrando 5 mil locais onde contagens de estrelas para o projeto Globe at Night foram feitas em algum momento nos últimos nove anos, mas nunca repetidas para registrar a evolução da poluição luminosa naquele local.

O Globe at Night tem uma newsletter mensal, que pode ser assinada ou lida neste link. Este mês, por exemplo, tem a indicação da página Light Pollution Map, onde é possível acompanhar medidas de brilho de fundo do céu obtidas com equipamentos como o Sky Quality Meter (SQM) e fornecidos pela instituição norte americana National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA). Na imagem abaixo é possível ver a área com maior incidência de poluição luminosa no Brasil, que inclui São Paulo, Rio de Janeiro e entre elas, no Sul de Minas, o local onde está instalado o maior telescópio profissional em solo brasileiro, o Observatório do Pico dos Dias (cerca de 35 quilômetros de Itajubá).


Mapa da poluição luminosa na área mais afetada do Brasil, incluindo as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro. Imagem produzida através da página Light Pollution Map. Clique para ampliar!

É sempre importante lembrar que as observações realizadas através dos aplicativos 'Dark Sky Meter' (iOS) e 'Loss of the Night' (para iOS e Android) também se juntam aos esforços do Globe at Night, de mapear a incidência e variação da poluição luminosa em todo o globo terrestre. São várias as oportunidades e maneiras de colaborar com as pesquisas!

Nova página web do projeto Globe at Night, marcando seus dez anos de existência.


quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

NASA observa do espaço as luzes das festas de fim de ano

Nos últimos dois anos e meio, cientistas do Goddard Space Flight Center (NASA) e da Universidade de Yale (EUA), têm usado imagens de alta sensibilidade e resolução obtidas pela câmera VIIRS, a bordo do satélite Suomi-NPP, com o objetivo de observar os padrões de iluminação de 1200 cidades mundo afora. Ou seja, para observar a incidência de poluição luminosa ao longo do tempo.

A partir destes dados, os cientistas verificaram o aumento de iluminação relacionado às festas de final de ano e, no Oriente Médio, ao mês do Ramadã. Miguel Román, físico do Goddard envolvido na pesquisa, lembra que as mudanças de comportamento durante as épocas festivas refletem alterações na demanda por fornecimento de energia e que entender as mudanças sazonais do uso da iluminação artificial colabora para monitorar as emissões de dióxido de carbono localmente.

As imagens abaixo, disponibilizadas pelo NASA Earth's Observatory, ilustram o impacto da decoração de Natal em algumas cidades dos EUA através de uma escala de cores. As áreas verdes sofreram aumento de iluminação, aquelas em amarelo mantiveram o mesmo nível e, em vermelho, estariam os locais onde a iluminação diminuiu. Os subúrbios, onde as casas americanas possuem grandes quintais, registram maior aumento de poluição luminosa durante essa época. Áreas em vermelho são quase inexistentes... Nos subúrbios, o aumento de iluminação registrado é entre 30 a 50%, enquanto que, nos grandes centros urbanos, o aumento é de 20 a 30%. 



Alteração na iluminação e, portanto, na poluição luminosa gerada por algumas cidades dos EUA com as festas de fim de ano (créditos: NASA Earth's Observatory). A iluminação tende a aumentar nos subúrbios, onde as casas possuem grandes quintais, cuja decoração natalina é uma tradição que, segundo a monitoria, independe da situação econômica do país.

No caso do Oriente Médio, a mudança de iluminação durante o Ramadã ilustra mais claramente as peculiaridades culturais, religiosas, econômicas e políticas da região. Na imagem abaixo, que segue a mesma escala de cores das anteriores, verifica-se que o Cairo (Egito) apresenta grandes áreas com aumento de luzes. Segundo a pesquisa, nas áreas mais pobres da cidade, esse aumento é menor. Já em Tel Aviv (Israel), não se encontram as mudanças sazonais e o nível de iluminação artificial permanece o mesmo. 

Alteração da iluminação em alguns locais do Oriente Médio durante o Ramadã. (créditos: NASA Earth's Observatory).

Nas cidades da Síria observa-se diminuição da iluminação, provavelmente refletindo a agitação política e militar na região. No Iraque e na Líbia, diminuições abruptas do nível de iluminação podem indicar a geração instável de energia elétrica.

Os pesquisadores esperam correlacionar os padrões sazonais de iluminação com as medições de taxas de emissão de carbono e utilizá-los para estimar o consumo de energia no futuro. É claro que podemos ser mais críticos em relação ao uso da luz artificial e alterar positivamente o comportamento que tem sido observado, principalmente durante as festas de fim de ano segundo o calendário cristão. Será que o prazer momentâneo de observar as luzinhas coloridas de Natal vale os impactos ambientais do aumento de geração de energia elétrica, emissão de dióxido de carbono e de poluição luminosa? Será que apenas as luzes artificiais em abundância podem fazer com que a decoração de fim de ano fique encantadora? Não poderiam as luzes das nossas festas serem aquelas provenientes das estrelas, que seriam observadas se a iluminação artificial fosse utilizada com racionalidade?


No vídeo abaixo, Miguel Román explica mais sobre o projeto.




Fonte:


Fica a minha sugestão de iluminação decorativa para as festas:


Imagem da Via Láctea obtida no sul de Minas Gerais, Brasil. Crédito: Tânia Dominici.

domingo, 9 de novembro de 2014

Sobre a fotografia noturna em locais com alta poluição luminosa

Quem mora em áreas urbanas já está acostumado a olhar para o céu noturno e enxergar poucas estrelas devido à poluição luminosa, agravada pela poluição atmosférica. Com o tempo, até perdemos a sensibilidade para a questão. Uma maneira interessante de comprovar dramaticamente o quanto estamos afetando a natureza com o excesso de luz artificial é através da fotografia noturna.

Abaixo, temos uma imagem do tipo que chamamos de startrails: é a combinação de uma sequência de fotos obtidas com a câmera fixa. Quando combinadas, através de programas específicos, podemos ver o movimento relativo das estrelas ao redor dos polos celestes. Esse movimento é, de fato, causado pela rotação da Terra. Para chegar ao resultado, cerca de 90 imagens obtidas em um céu relativamente bem preservado foram combinadas. Cada uma delas foi feita com 4 segundos de integração e ISO 3200 (F3.5), utilizando uma câmera Canon Rebel T3i. O tripé é imprescindível...


Imagem obtida em 2013,no Observatório do Pico dos Dias (sul de Minas), mostrando o polo sul celeste. Combinação de cerca de 90 imagens, cada uma com 4 segundos de integração; ISO 3200; f3.5; Canon Rebel T3i. Crédito: Tânia Dominici.

Já na próxima imagem, algo semelhante foi tentado, mas nos céus muito poluídos do Rio de Janeiro. Foram combinadas cerca de 80 imagens, cada uma com 11 segundos de integração (!) e ISO 3200 (f/22), com o mesmo equipamento utilizado na produção da imagem acima. A diferença na quantidade de estrelas é gritante. Além disso, na imagem abaixo ainda é possível notar a reflexão interna na câmera devido à iluminação super irracional de um museu ao lado da locação.

Imagem de 2014, obtida na zona norte do Rio de Janeiro. Foram combinadas cerca de 80 fotos, com 11 segundos de integração cada; ISO 3200; f/22; Cano Rebel T3i. Note, à direita do centro da imagem, a reflexão interna na câmera provocada pela iluminação extremamente irracional de um museu vizinho. Crédito da imagem: Tânia Dominici.
Imagens de startrails como as mostradas acima podem ser criadas com o programa gratuito de mesmo nome, criado e disponibilizado pelo astrofotógrafo alemão Achim Schaller. Tem até versão em português!

Por sua vez, o fotógrafo Justin Ng elaborou um tutorial para demonstrar que é possível produzir imagens da Via Láctea mesmo em cidades muito contaminadas, como Cingapura, onde ele vive. Para tanto, é necessário basicamente uma câmara DSLR (com tripé), como a utilizada nas imagens mostradas acima, e o programa Photoshop. A sequência de fotos abaixo ilustra o processo. A primeira mostra a imagem original, obtida com o máximo de integração possível para que as estrelas não apareçam corridas (devido ao movimento da Terra). É indiscutível o comprometimento pela poluição luminosa. No Photoshop, o fotógrafo faz manipulações, como aplicar uma normalização e o ajuste de brilho. Na imagem resultante (no centro), já podemos ver a Via Láctea. Após uma sequência de outras edições, Justin Ng chega ao resultado final (terceira imagem): uma estonteante visão do centro da nossa Galáxia que parece ter sido obtida em um local distante das grandes concentrações urbanas. Não, o olho humano não consegue ver este espetáculo daquele local, mas poderia chegar próximo se houvesse controle da poluição luminosa...





Sequência de imagens feitas por Justin Ng ilustrando o seu método para fotografar a Via Láctea em locais muito poluídos como Cingapura. No topo: foto original, obtida integrando o máximo possível sem que as estrelas fiquem corridas (conhecida como regra dos 500). No centro: imagem normalizada pelo Photoshop e com ajuste de brilho, onde já é possível ver a Via Láctea. Abaixo: resultado final, após manipulações diversas no Photoshop. Não deixe de visitar a página do fotógrafo.

Veja o tutorial completo na página de Justin Ng (uma versão simplificada em português foi disponibilizada pelo portal de fotografia digital Convexa).

Porém, mesmo sem o conhecimento técnico e a habilidade de pessoas como Justin Ng, com uma máquina DSLR e um tripé é possível obter imagens interessantes de alguns objetos celestes nas grandes cidades. A Lua é, obviamente, o alvo principal, mas também é interessante utilizar o zoom óptico da máquina (e a eventual ajuda de uma luneta simples) para registrar o movimento das luas galileanas em torno de Júpiter. Mesmo em locais muito iluminados, a passagem da Estação Espacial Internacional (ISS) pode resultar em imagens muito interessantes! Para se programar, descubra quando ela passará sobre a sua cidade na página Heavens Above.


A Lua é facilmente fotografada mesmo com câmeras simples. O essencial é colocar o equipamento em um tripé a aprender a utilizar as configurações manuais da sua câmera... Crédito: Tânia Dominici.

Júpiter e as quatro luas galileanas observados apenas com a máquina fotográfica, sem o auxílio de telescópio. O movimento dos satélites em torno do planeta, ao longo das horas e dos dias, pode ser registrado mesmo nas grandes cidades. Crédito: Tânia Dominici.


Passagem da Estação Espacial Internacional (ISS) registrada em uma cidade de médio porte. Crédito: Tânia Dominici.

No entanto, você quer mesmo perder a oportunidade de contemplar um céu despoluído e fotografar a Via Láctea com toda a sua beleza sem maiores truques de edição? O vídeo abaixo, produzido por Ian Norman e Diana Southern em locações nos EUA é, definitivamente, inspirador para uma aventura de turismo ecológico e científico em áreas com céus preservados. Os autores do vídeo também oferecem um curso online gratuito de astrofotografia. Aproveite!




É claro que, apesar de existirem maneiras de obter imagens razoáveis do céu mesmo com a poluição luminosa, ou então viajar para os poucos locais do planeta ainda preservados, o melhor mesmo é nos conscientizarmos do problema e cobrarmos a instalação de luminárias e lâmpadas racionais, que direcionem a luz unicamente para o local que deve ser iluminado e exclusivamente pelo período de tempo que for necessário. Deste modo, ganharemos em qualidade de vida, em sustentabilidade e na possibilidade de voltar a contemplar as estrelas, mesmo vivendo nas maiores metrópoles...

Nunca é demais lembrar: a luta contra a poluição luminosa não se baseia em eliminar ou reduzir drasticamente a iluminação externa, mas em racionalizá-la para criar ambientes noturnos mais sustentáveis e seguros para a população, sem desperdício de recursos, naturais ou financeiros, e minimizando o comprometimento para a vida de plantas e animais.

Update em 15/12/2014: Ian Norman também produziu o vídeo incorporado abaixo explicando a técnica ETTR (Expose to the Right) para fotografar a Via Láctea mesmo em lugares com muita poluição luminosa. No final, Ian relembra que nada substitui a experiência de fotografar o céu noturno em locais despoluídos...



segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Está começando a campanha Globe at Night 2014!

O projeto de ciência cidadã Globe at Night conta com a sua colaboração para ajudar a estimar e monitorar o impacto da poluição luminosa no planeta.  

Os detalhes do projeto foram explicados neste post. A ideia é observar uma constelação específica de fácil identificação, como Órion ou o Cruzeiro do Sul, e contar quantas estrelas são visíveis do local onde o observador (você mesmo!) mora ou por onde estiver passando. Depois é só relatar as observações pelo aplicativo na página do projeto, que este ano pode ser encontrado também em português. Assim, forma-se uma grande base de dados para diversas pesquisas e trabalhos de conscientização pública sobre os riscos da iluminação artificial irracional.

A campanha de 2014 começa na segunda, dia 20 de janeiro, com muitas novidades. Além de uma nova página na internet, agora as observações podem ser feitas durante o ano inteiro. Veja na imagem abaixo as datas das campanhas.



Datas das campanhas de observação para o projeto Globe at Night 2014 e mapa com os dados enviados durante 2013. Os brasileiros precisam contribuir mais! O arquivo em pdf pode ser encontrado aqui.

É muito fácil participar! Para cada constelação selecionada para o projeto e visível no Hemisfério Sul (ou seja, no Brasil) existe um guia de atividades em português, graças à colaboração de voluntários que traduzem o material original para diversas línguas. Seguem os respectivos links:

* Órion (constelação sugerida para as observações entre 20 e 29 de janeiro, 19 a 28 de fevereiro e 21 a 30 de março);
* Cruzeiro do Sul (observações entre 25 e 29 de março, 20 a 29 de abril e 19 a 28 de maio);
* Escorpião (observações entre 17 e 26 de junho e 16 e 25 de julho);
* Sagitário (para as campanhas entre 15 a 24 de agosto, 15 a 24 de setembro e 14 a 23 de outubro);
* Baleia (entre 11 e 21 de novembro e 11 e 20 de dezembro).


Localizar Órion para participar da primeira parte da campanha é simples: essa é a constelação que contém as estrelas popularmente conhecidas como as 'Três Marias'. Está visível logo ao anoitecer, como mostra a simulação abaixo, feita com o programa gratuito Stellarium.


Logo ao anoitecer, olhando para a direção Leste, é possível observar a constelação de Órion, cujo cinturão é formado pelas estrelas conhecidas como as 'Três Marias'. Aproveite a oportunidade para observar Júpiter, convenientemente próximo ao primeiro alvo da campanha Globe at Night 2014 no Hemisfério Sul. Simulação feita com o programa gratuito Stellarium.



O dados obtidos através dos aplicativos 'Dark Sky Meter' e 'Loss of the Night', para iOS e Android, respectivamente, também são incluídos na base de dados do Globe at Night.


Outros posts já publicados no blog sobre o projeto podem ser consultados neste link.

O Globe at Night pode ser acompanhado através da sua página na internet, twitter ou no facebook.


domingo, 1 de dezembro de 2013

As 45 cidades mais brilhantes do planeta: conheça o trabalho de Christina Seely

Depois das "Cidades Escurecidas" de Thierry Cohen, mais uma fotógrafa divulga uma série de imagens que chama a atenção para as questões relacionadas à poluição luminosa.

Observando a imagem da Terra à noite, disponibilizada pela NASA e mostrada abaixo, Christina Seely, fotógrafa e educadora de São Francisco (EUA), selecionou 45 cidades nas  regiões mais brilhantes do globo. Normalmente associadas ao progresso e melhor qualidade de vida, as regiões mais iluminadas registram, antes de mais nada, o imenso desperdício de recursos econômicos e naturais com a iluminação mal planejada, que direciona a luz inutilmente para o céu.

A Terra observada à noite em outubro de 2012 (NASA Earth Observatory/NOAA NGDC). Com base nessa imagem, Seely selecionou as 45 cidades nas áreas mais iluminadas para compor a sua série Lux, que registra o brilho do céu naquelas regiões.

Durante cinco anos, a fotógrafa visitou os locais selecionados e registrou o brilho do céu, também chamado de sky glow, um dos tipos de poluição luminosa. A série de imagens resultante constitui o trabalho intitulado de Lux. Sempre que possível, Christina procurava locais mais afastados de onde pudesse observar as cidades e registrar o contraste entre a natureza e a iluminação artificial. Ambas são belas, porém incompatíveis, uma vez que a poluição luminosa provoca impactos negativos no meio ambiente e no ciclo de vida de diversas espécies animais. Veja abaixo alguns resultados desse belo trabalho.



Algumas imagens da série Lux, de Christina Seely, mostrando o contraste entre o brilho do céu gerado pela iluminação excessiva e a natureza. Em cima: Madrid (Espanha); no meio: Amsterdã (Holanda); abaixo: Tóquio (Japão).


E no Brasil?

Embora o trabalho de Seely seja uma expressão artística que promove a discussão sobre a poluição luminosa, o fato é que o monitoramento fotográfico de áreas urbanas próximas de regiões de especial interesse (como reservas naturais e observatórios astronômicos) constitui uma importante ferramenta de controle dos excessos e da qualidade da iluminação artificial.

Para exemplificar, as imagens abaixo, obtidas entre 2012 e 2013, mostram as cidades de Itajubá e Brazópolis, vistas do Observatório do Pico dos Dias.


Itajubá vista do Observatório do Pico dos Dias. Imagem obtida em 15 de maio de 2013, por T. Dominici (Canon Rebel T3i, f3.5, 20 segundos de exposição, ISO 1600). 


Brazópolis observada do OPD em imagens obtidas com 10 meses de intervalo, aproximadamente no mesmo horário (por volta das 19:30 h). À esquerda: observação em 16/08/2012; à direita: observação em 03/06/2013. Podemos verificar, do lado esquerdo da cidade na imagem mais recente, uma área de expansão urbana, utilizando lâmpadas alaranjadas e menos poluentes, de vapor de sódio de alta pressão. Na imagem de 2012, a  polêmica iluminação do campo de futebol está ligada. Imagens de T. Dominici, ambas obtidas com Canon Rebel T3i, f5.6, 5 segundos de exposição, ISO 800.


Não deixe de visitar a página de Christina Seely. O livro com as imagens pode ser adquirido aqui. As fotografias em grande formato estão, neste momento, expostas em Massachusetts (EUA).




Update em 12/03/2016: Se você quer saber mais sobre a "cidade mais iluminada do mundo", não deixe de ver o post sobre Hong Kong!

Aproveite para ver as incríveis imagens do Planeta durante a noite, nesta galeria organizada pelo jornal britânico Telegraph.


América do Sul durante a noite. Note a poluição luminosa concentrada na região sudeste do Brasil e veja a galeria completa aqui (Fonte: Telegraph/NASA).


segunda-feira, 13 de maio de 2013

O seu telefone celular pode ajudar a estimar a poluição luminosa!

Foram lançados dois aplicativos para smartphones direcionados à avaliação da poluição luminosa: o Dark Sky Meter, para iPhone, e o Loss of the Night, para quem possui aparelhos com sistema operacional Android.

Embora sejam bastante diferentes, o objetivo dos dois aplicativos é o mesmo: oferecer uma ferramenta para que qualquer cidadão possa contribuir para estimar a poluição luminosa em todo o planeta. Os aplicativos estão em inglês, mas são de fácil utilização. Descrevemos abaixo cada uma das opções. 

Dark Sky Meter

É oferecido em duas versões: o Lite, gratuito, e o Pro, que custa 3,99 dólares na Apple Store. O aplicativo foi desenvolvido para os iPhones 4, 4S e 5.

Ele funciona como o Sky Quality Meter, aparelho para medir o brilho de fundo do céu produzido pela Unihedron e que já descrevemos aqui. Para fazer a medida são necessários dois passos: no primeiro, o usuário tampa a câmera do iPhone para fazer uma calibração. Na sequência, ele aponta a câmera para o céu, no ponto acima de sua cabeça (zênite), e realiza a medida.

O Dark Sky Meter estima o brilho de fundo do céu de modo semelhante ao SQM-L, que descrevemos anteriormente. 

Na versão Lite, o aplicativo diz quantas vezes o céu daquele local é mais brilhante do que deveria ser, enquanto que, na versão Pro, o resultado também é dado em magnitudes por segundos de arco ao quadrado (tal como o SQM-L). Em ambos os casos, o usuário pode informar a cobertura de nuvens durante a medida e enviar os seus resultados para os servidores do projeto. Assim, as informações são disponibilizadas para pesquisas científicas e seus dados são incluídos em um mapa, que pode ser consultado dentro do próprio aplicativo, na versão Pro.


Todas as medidas de brilho do fundo do céu enviadas através do Dark Sky Meter Pro são disponibilizadas em tempo real em um mapa, dentro do próprio aplicativo. Essas medidas refletem a incidência da poluição luminosa em diferentes partes do planeta. Imagem obtida da página do projeto.

Atualização em 03/06/2013: agora as medidas obtidas com o Dark Sky Meter podem ser visualizadas, em tempo real e mesmo por quem não tem o aplicativo, através desta página.



Os resultados de todas as medidas feitas com o Dark Sky Meter agora podem ser consultados na página do projeto: http://www.darkskymeter.com/map/, mesmo por quem não tem acesso ao aplicativo.



Loss of the Night

O "Loss of the Night" é um grupo de pesquisas interdisciplinares sobre poluição luminosa, com sede na Alemanha, e o aplicativo para celulares com Android é um dos projetos associados. Ele trabalha com a mesma ideia do projeto Globe at Night, orientando o  usuário a contar estrelas em certas regiões do céu. Os resultados são enviados para uma central, sendo posteriormente utilizados nas pesquisas científicas e em trabalhos de conscientização pelo uso racional da iluminação artificial.

"Faça parte de um projeto científico mundial que mede a poluição luminosa". O Loss of the Night é um aplicativo para smartphones que rodam Android.

Baseado na sua localização geográfica, o aplicativo indica regiões do céu a serem observadas. Durante a noite, basta apontar a câmera para cima e um círculo vermelho com uma flecha surgirá na tela (veja a figura abaixo). Movimente o aparelho na direção da flecha. Quando chegar à área correta, o círculo se tornará amarelo e o aplicativo perguntará se o usuário consegue enxergar a estrela naquele local. O processo se repetirá sete vezes e, ao final, os resultados são enviados via internet. O usuário também pode informar sobre a cobertura de nuvens no momento das observações.



 O Loss of the Night mostra um círculo vermelho com uma flecha para orientar o usuário a encontrar a região do céu a ser observada. Quando ela é encontrada, o círculo se torna amarelo e o aplicativo questiona se é possível ver uma estrela naquela região do céu. A sequência deve ser repetida sete vezes antes do envio dos resultados. Imagens obtidas do Google Play.


No vídeo abaixo, o Dr. Cristopher Kyba, um dos pesquisadores envolvidos, fala sobre ciência cidadã e descreve as motivações para o desenvolvimento desse aplicativo. Está em inglês, mas lembre-se que durante a exibição no YouTube é possível incluir legendas e traduzi-las para português.





Caso tenha algum desses aparelhos, não deixe de instalar os aplicativos e ajudar a estimar os impactos da poluição luminosa! Ainda não sabe o que é esse tipo de poluição e as suas consequências para a nossa vida? Descubra fazendo o download da apostila e visitando a nossa página sobre o assunto.


No twitter, siga @DarkSkyMeter e @VerlustderNacht.


Agradecimentos especiais à colaboradora involuntária, Paulínea, que cedeu seu smartphone com Android para testes do aplicativo seguindo altos padrões de metodologia científica...

Página de notícias sobre Poluição Luminosa (PL), mantida pela astrofísica Tânia Dominici.

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