domingo, 13 de março de 2016
Iluminação noturna baseada em bactérias bioluminescentes? É o que propõe uma empresa francesa
A bioluminescência é o fenômeno de produção de luz por seres vivos, resultante de reações químicas. O exemplo mais conhecido é, certamente, a luz emitida pelos vaga-lumes. Mas a bioluminescência ocorre em muitos outros organismos, tais como algas, moluscos, peixes e crustáceos.
Uma starup francesa, a Glowee, está propondo a utilização de bactérias bioluminescentes como fonte de iluminação noturna. A vantagem seria o consumo nulo de energia elétrica e a não geração de poluição luminosa, segundo a visão do grupo de jovens empreendedores. A ideia da tecnologia proposta pela Glowee nasceu em um concurso universitário e seu desenvolvimento inicial foi possível graças a uma ação de financiamento coletivo.
A Glowee cultiva as bactérias bioluminescentes Aliivibrio fischeri, extraídas de lulas, em um suporte transparente que pode ser criado em qualquer formato. No interior do suporte é inserido um gel com nutrientes para a manutenção da vida daquelas bactérias. A iluminação só é percebida durante a noite (ou no escuro, claro), com o suporte permanecendo transparente durante o dia. É o que ilustra a figura abaixo.
Durante o dia, o produto criado pela Glowee permanece transparente. Durante a noite, observa-se a luz produzida pelas bactérias. Captura de tela de um dos vídeos de divulgação do projeto (assista no final deste post).
O maior problema da nova tecnologia, do ponto de vista de sua viabilidade comercial, é o tempo de vida. O primeiro produto oferecido pela companhia é uma fonte de luz que dura três dias. Pesquisas estão sendo realizadas para aumentar a duração da fonte de luz. Até 2017, a expectativa é que a o produto forneça luz ao menos por um mês, o que o tornaria competitivo para a iluminação de vitrines nas lojas de rua, por exemplo. As bactérias estariam sendo geneticamente modificadas para aumentar o seu brilho e a sobrevivência em caso de maiores variações de temperatura.
Um dos incentivos para investir nesta nova tecnologia de iluminação é a legislação em vigor desde 2013 na França, que limita o uso da luz artificial durante a noite, exigindo que vitrines e prédios comerciais de maneira geral desliguem suas luzes externas a partir da 1:00 h da madrugada para economizar energia elétrica e diminuir a poluição luminosa. O produto da Glowee seria uma maneira de burlar a lei. Mas, por qual razão, se a legislação francesa estabelece o óbvio: luzes desligadas quando e onde não há circulação de pessoas?
Concepção artística das possibilidades de utilização da nova tecnologia. A luz bioluminescente seria usada para sinalização pública, iluminação de propagandas, vitrines e decoração de prédios. Imagens de divulgação, obtidas na página da Glowee.
A nova tecnologia serviria como opção sustentável para manter as cidades seguras e sustentáveis ou só seria uma maneira para continuar utilizando a luz inutilmente? Mesmo sem gastar energia elétrica, a fonte de luz continuaria impactando no ciclo circadiano humano, dos insetos, das aves, das plantas... Para manipular qualquer forma de vida e condicioná-la a viver fora daquele que seria o seu ciclo natural, tal como esta sendo feito com as bactérias bioluminescentes, é preciso uma necessidade real. Não deveria bastar o capricho humano... Os próximos anos saberemos se há, de fato, um nicho de mercado para esta nova forma de iluminar.
A utilização de sensores de presença para acionamento de luzes, o investimento em desenvolver matrizes energéticas variadas e sustentáveis, a utilização de filtros em lâmpadas LED, ou a criação destas lâmpadas simulando o rendimento de cor das lâmpadas de vapor de sódio: estes parecem ser caminhos mais razoáveis para criar um sistema de iluminação racionalizado, que minimize a poluição luminosa e os impactos da luz artificial no meio ambiente.
Assista abaixo aos vídeos de apresentação da Glowee (o primeiro em inglês; o segundo em francês, com legendas em inglês).
Update em 25/03/2016: A bioluminescência tem papel fundamental no equilíbrio dos ecossistemas e esta é uma das razões pela qual pode ser questionável manipular bactérias para que elas produzam luz visando satisfazer nosso anseio por iluminação decorativa. Os vaga-lumes, por exemplo, possuem toda uma rede de comunicação entre si baseada no padrão de suas luzes. O vídeo abaixo, produzido por Harun Mehmedinović, traz um belo exemplo. Ele mostra o registro das luzes sincronizadas durante a temporada de reprodução da espécie Photinus carolinus, que ocorre entre maio e junho no Hemisfério Norte. As imagens foram feitas em Elkmont, cidade abandonada no território do Parque Nacional Great Smoky Mountains, nos Estados Unidos.
- Glow-in-the-dark bacterial lights could illuminate shop windows - New Scientist;
- Glowee - página oficial do projeto;
- Startup quer usar bactérias para iluminar ruas de Paris - Época Negócios.
domingo, 6 de março de 2016
Começou a campanha "Globe at Night" de 2016, participe!
O Globe at Night é um projeto de ciência cidadã que conta com a contribuição da população para estimar os impactos da iluminação artificial em todo o planeta. Para cada época do ano e cada Hemisfério (Sul ou Norte), uma constelação de fácil identificação é escolhida como referência. É muito simples participar: basta contar quantas estrelas você consegue observar naquela dada área do céu e registrar suas observações no formulário próprio. São oferecidas instruções em 28 idiomas, inclusive em português. Explicações detalhadas de como executar as observações e preencher o formulário podem ser encontradas neste post.
As duas primeiras campanhas de 2016 foram realizadas entre 1 e 10 de janeiro e fevereiro. O fato é que em boa parte do Brasil, devido às chuvas de verão, é mesmo difícil termos noites de céu aberto especialmente entre novembro e fevereiro... Com o início do tempo seco, teremos mais oportunidades de participar! Vamos às datas e constelações das próximas observações para a campanha 2016:
- Cruzeiro do Sul - 1o a 10 de março; 30 de março a 8 de abril; 29 de abril a 8 de maio; 29 de maio a 7 de junho;
- Escorpião - 27 de junho a 6 de julho;
- Sagitário - 28 de julho a 6 de agosto; 25 de agosto a 2 de setembro;
- Grou - 21 a 31 de outubro; 20 a 30 de novembro;
- Órion - 20 a 30 de dezembro.
Lembrando que as observações devem ser feitas sempre entre 20 e 22:00 h!
Atenção às datas de observação para a campanha Globe at Night 2016! Imagem obtida da página do projeto.
Resultados da campanha 2015, incluindo 23 mil observações obtidas por pessoas de 103 países. Note como participamos pouco no Brasil e ajude a mudar esta situação! Imagem obtida da página do projeto.
As medidas realizadas através dos aplicativos para celular Dark Sky Meter (iOS) e Loss of the Night (Android e iOS) também são incluídas na base de dados do Globe at Night. Aproveite e use o seu celular para ajudar a monitorar a poluição luminosa em todo o planeta!
Você pode acompanhar a evolução das observações através do mapa interativo, disponível neste link.
Marcadores:Globe at Night,LED,monitoramento,poluição luminosa | 0
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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016
"A cidade mais iluminada do mundo"
O título desta postagem também é também a frase utilizada nos mecanismos de busca que mais direciona novos leitores a este pretensioso blog. Em particular, a busca tem levado ao post sobre o trabalho da fotógrafa Christina Seely, que registrou cenários noturnos nas 45 cidades mais brilhantes do planeta, selecionadas através de imagens da Terra obtidas do espaço.
Mas o leitor quer saber: dentre todas, qual é considerada a "cidade mais iluminada do mundo"? A resposta para a pergunta é: Hong Kong, na China. E, claro, ser a mais iluminada significa também ser aquela mais contaminada pela poluição luminosa.
Existia resistência em se discutir a questão e ela começou a ser vencida a partir de 2008, quando uma série de pesquisas indicaram, por exemplo, que o céu em Hong Kong chega a ser mil vezes mais brilhante do que em locais com o céu preservado da poluição luminosa. A situação é dramática não apenas nas áreas comerciais: as regiões mais periféricas também apresentam brilho do céu extremamente alterado em relação ao que seria o ambiente natural. Como é sempre discutido neste blog, além de nos afastar da visão das estrelas, a poluição luminosa tem severos impactos sobre o meio ambiente, a economia e a saúde humana. Por isso a situação drástica de Hong Kong precisa ser controlada e a cidade ainda não tem nenhuma legislação para isso. O mais preocupante é que ela não a terá tão cedo...
Em 2011, o governo criou uma força-tarefa para propor soluções de controle da poluição luminosa que levassem em conta a viabilidade para o comércio, a segurança, a percepção dos moradores e o impacto no turismo. Por sua vez, esta equipe realizou pesquisas junto à população e promoveu sessões de consultas públicas. Em 2015, na impossibilidade de chegar a um consenso, foi sugerido um esquema de voluntariado. Assim, a partir de uma série de orientações para boas práticas em iluminação externa, espera-se que a adesão ao combate à poluição luminosa seja feita de modo espontâneo por instituições privadas e públicas. A solução apontada obviamente desaponta pesquisadores e ativistas ambientais, porém as pesquisas de opinião e consultas públicas parecem ter indicado um ambiente desfavorável para a implantação de ações mais efetivas, prevendo punição para os excessos. Principalmente os comerciantes resistem à ideia de limitar a iluminação de suas fachadas e prédios, temendo descaracterizar o que seria um dos principais atrativos turísticos da cidade: justamente o ambiente externo ultra iluminado.
A força-tarefa não excluiu a possibilidade de que leis para o controle da poluição luminosa sejam criadas no futuro, mas por pelo menos dois anos a partir de 2015 o foco deve ser no incentivo para a adesão espontânea ao uso racional da luz. A posição conservadora vai na contramão do que vem acontecendo em outros países e cidades, cada vez mais preocupados em criar ferramentas legais que ajudem a combater os problemas causados pela poluição luminosa. Assim, a perspectiva é que Hong Kong permaneça sendo por muito tempo "a cidade mais iluminada do mundo".
As pesquisas sobre a poluição luminosa na região são crescentes e, em particular, existe uma rede de monitoramento do brilho do céu em Hong Kong, cuja página disponibiliza o monitoramento em tempo real, além de informações para a conscientização sobre poluição luminosa e seus diversos malefícios.
Referências e informações adicionais:
Vista noturna de Hong Kong, considerada a cidade com maior poluição luminosa do planeta. Imagem retirada da Wikipedia e de autoria de Base64 (Own work, CC BY-SA 3.0).
Existia resistência em se discutir a questão e ela começou a ser vencida a partir de 2008, quando uma série de pesquisas indicaram, por exemplo, que o céu em Hong Kong chega a ser mil vezes mais brilhante do que em locais com o céu preservado da poluição luminosa. A situação é dramática não apenas nas áreas comerciais: as regiões mais periféricas também apresentam brilho do céu extremamente alterado em relação ao que seria o ambiente natural. Como é sempre discutido neste blog, além de nos afastar da visão das estrelas, a poluição luminosa tem severos impactos sobre o meio ambiente, a economia e a saúde humana. Por isso a situação drástica de Hong Kong precisa ser controlada e a cidade ainda não tem nenhuma legislação para isso. O mais preocupante é que ela não a terá tão cedo...
Em 2011, o governo criou uma força-tarefa para propor soluções de controle da poluição luminosa que levassem em conta a viabilidade para o comércio, a segurança, a percepção dos moradores e o impacto no turismo. Por sua vez, esta equipe realizou pesquisas junto à população e promoveu sessões de consultas públicas. Em 2015, na impossibilidade de chegar a um consenso, foi sugerido um esquema de voluntariado. Assim, a partir de uma série de orientações para boas práticas em iluminação externa, espera-se que a adesão ao combate à poluição luminosa seja feita de modo espontâneo por instituições privadas e públicas. A solução apontada obviamente desaponta pesquisadores e ativistas ambientais, porém as pesquisas de opinião e consultas públicas parecem ter indicado um ambiente desfavorável para a implantação de ações mais efetivas, prevendo punição para os excessos. Principalmente os comerciantes resistem à ideia de limitar a iluminação de suas fachadas e prédios, temendo descaracterizar o que seria um dos principais atrativos turísticos da cidade: justamente o ambiente externo ultra iluminado.
Charge ironizando o trabalho da força tarefa criada para buscar soluções para a poluição luminosa em Hong Kong que, não tendo sucesso em apresentar soluções que acolhessem a todos os interesses, propôs que a adesão ao combate à poluição luminosa seja voluntário. Charge de Harry Harrison (Harry’s View).
A força-tarefa não excluiu a possibilidade de que leis para o controle da poluição luminosa sejam criadas no futuro, mas por pelo menos dois anos a partir de 2015 o foco deve ser no incentivo para a adesão espontânea ao uso racional da luz. A posição conservadora vai na contramão do que vem acontecendo em outros países e cidades, cada vez mais preocupados em criar ferramentas legais que ajudem a combater os problemas causados pela poluição luminosa. Assim, a perspectiva é que Hong Kong permaneça sendo por muito tempo "a cidade mais iluminada do mundo".
As pesquisas sobre a poluição luminosa na região são crescentes e, em particular, existe uma rede de monitoramento do brilho do céu em Hong Kong, cuja página disponibiliza o monitoramento em tempo real, além de informações para a conscientização sobre poluição luminosa e seus diversos malefícios.
Surpreendentemente, o local de pior iluminação em toda Hong Kong é o museu de astronomia e ciências espaciais! Como pode ser visto na imagem reproduzida acima, a área do museu é 1200 vezes mais brilhante do que deveria!
Referências e informações adicionais:
- Strike a light: Hong Kong task force shelves legislation on light pollution;
- Light pollution in Hong Kong 'worst on the planet';
- Hong Kong's light pollution 'worst in the world';
- Light pollution in Hong Kong;
- Blinded by the light: Combating HK's 'other pollution';
- Poluição luminosa em Hong Kong é a "pior do planeta";
- Hong Kong Night Sky Brightness Monitoring Network;
- Task force suggests voluntary scheme to curb light pollution;
- Guidelines on Industry Best Practices for External Lighting Installations;
- Night-sky brightness monitoring in Hong Kong: A city-wide light pollution assessment;
- Contributions of artificial lighting sources on light pollution in Hong Kong measured through a night sky brightness monitoring network.
sexta-feira, 18 de dezembro de 2015
Céus despoluídos sobre as grandes cidades?
O fotógrafo David Oliver Lennon decidiu juntar as suas magníficas imagens do céu despoluído da Tasmânia com aquelas feitas em cinco grande cidades: Londres, Nova Iorque, Los Angeles, Cingapura e Doha. O resultado é o vídeo abaixo, onde podemos vislumbrar o que seria o melhor dos mundos: todo o conforto possibilitado pelo uso da iluminação artificial, com a deslumbrante visão do céu noturno preservada.
Impossível não é! Porém é preciso que a iluminação artificial seja utilizada de modo racional, evitando gerar poluição luminosa. Isso inclui a escolha e instalação correta de luminárias e lâmpadas além de, claro, manter as luzes acessas exclusivamente durante o tempo em que elas são necessárias.
Visite a página oficial de David Oliver Lennon para conhecer mais sobre o seu trabalho e, em particular, suas astrofotografias!
sábado, 24 de outubro de 2015
Janelas para o Universo #SNCT2015
Este post faz parte da blogagem coletiva para a Semana Nacional de C&T 2015, organizada pelo Roberto Takata, do Gene Repórter.
Vivemos tempos privilegiados por termos acesso a imagens incríveis e fascinantes do Universo, obtidas através de diversos tipos de telescópios e instrumentos!
Esta é a justificativa para a promoção do tema "Um Universo de imagens" durante este ano, em que destacamos a importância da luz para as nossas vidas. O Ano Internacional da Luz faz um convite para contemplarmos o Universo através destas imagens!
A astrofísica é uma área da ciência que demanda desenvolvimentos tecnológicos extremos e, obviamente, cada vez mais caros. Porém, ela recompensa os investimentos gerando conhecimento, proporcionando novas tecnologias para o nosso cotidiano e disponibilizando as já citadas inspiradoras visões do Cosmos - frequentemente o único contato do público em geral com esta ciência.
Isto porque a maioria da população mundial pouco ou nada vê quando olha para o céu de suas cidades e, assim, perdeu o contato cotidiano com as maravilhas celestes. E quanto menos as pessoas são capazes de experimentar a observação de um céu repleto de estrelas, mais elas não entendem o que estão perdendo...
Até o início do século XX, em todos os locais do planeta era possível ver a Via Láctea a olho nu em noites de céu aberto. Com a propagação da iluminação artificial, o cenário começou a mudar. Já se buscava construir observatórios astronômicos em locais altos e secos desde as primeiras décadas daquele século mas, mesmo assim, alguns deles começaram a ser comprometidos por uma nova fonte de poluição: a luminosa, resultante do uso irracional da iluminação artificial. O Observatório de Monte Wilson, próximo a Los Angeles, foi um dos primeiros a ter seu trabalho afetado. Foi por observações obtidas lá que, por exemplo, Edwin Hubble descobriu que a nossa galáxia não é a única no Universo!
E aí cabe uma história interessante: na década de 1940, Walter Baade tirou proveito de blackouts, usuais durante a segunda grande guerra e que eliminavam a poluição luminosa em Monte Wilson, para descobrir a existência de diferentes populações estelares e estudá-las. Foi assim, sem a interferência das luzes artificiais, que ele pôde observar estrelas na galáxia de Andrômeda e descobrir uma região de baixa extinção por poeira interestelar na direção do centro da nossa galáxia, hoje conhecida como "Janela de Baade".
Além de comprometer o trabalho de observatórios já estabelecidos e privar as pessoas da contemplação de um céu estrelado, hoje sabemos que o uso ineficiente das luzes artificiais externas representa grande desperdício de energia elétrica. A poluição luminosa traz consequências negativas para a saúde humana, por exemplo, alterando a produção natural de melatonina, fator determinante para o desenvolvimento de alguns tipos de câncer, da obesidade, diabetes e depressão. No meio ambiente, a luz artificial irracional compromete a produção de alimentos e coloca em risco o ciclo natural de vida de várias espécies animais.
Mas, voltando à astronomia: a solução seria investir apenas em observatórios espaciais? Não seria. Além dos altos custos, riscos, limitações de tamanho, entre vários outros fatores operacionais e técnicos envolvidos em projetos de observatórios espaciais, nem todos os casos científicos poderiam ser totalmente estudados apenas através de dados obtidos por eles. É essencial termos observatórios para a janela visível do espectro eletromagnético em solo.
Atualmente, os maiores investimentos em novos telescópios têm sido feitos nos poucos locais do planeta que ainda oferecem condições de excelência, como o Norte do Chile, o topo do Mauna Kea (vulcão extinto localizado no Havaí, EUA), e as Ilhas Canárias (Espanha). A infraestrutura moderna de observação astronômica só é viabilizada devido à formação de consórcios internacionais: o Brasil, por exemplo, participa de consórcios que operam telescópios no norte do Chile (Gemini, SOAR e, esperamos que em breve, ESO) e em Mauna Kea (Gemini).
Observatório de Cerro Paranal (ESO), no norte do Chile, onde ficam os quatro telescópios ópticos mais avançados do planeta (créditos: ESO/H.H. Heyer). Clique na imagem para ampliar!
Mesmo estes locais privilegiados, que recebem investimentos que já alcançam a marca de bilhões de dólares, podem vir a ser comprometidos pelo aumento da poluição luminosa. Felizmente, todos eles possuem legislações e regulamentações buscando assegurar que a iluminação artificial das cidades nos seus arredores seja totalmente racional e pouco poluente.
Além disso, a UNESCO, através do International Council on Monuments and Sites (ICOMOS), e a União Astronômica Internacional (IAU/UAI) vem desenvolvendo estudos para aprofundar o conhecimento sobre as características e diferentes formas de patrimônio astronômico e desenvolver metodologias a fim de definir esta tipologia no contexto da Convenção do Patrimônio Mundial. Um dos temas emergentes foi a existência das "Janelas para o Universo", referindo-se justamente a estes locais de céus noturnos preservados e privilegiados que se tornaram essenciais para as pesquisas em astrofísica. Até o momento, foram feitos três estudos de caso: Cerro Tololo (Chile), La Palma (Espanha) e o Mauna Kea. Assim, a expectativa é que em breve estes locais possam vir a ser considerados Patrimônio da Humanidade. Mais do que um título, sua Convenção é um poderoso instrumento de preservação.
Enfim, a ideia do post, além de destacar a importância de preservar as "Janelas para o Universo", era incentivar o leitor a contemplar a beleza registrada através delas! Segue uma pequena seleção do "Universo em imagens":
À esquerda, duas galáxias em interação: NGC 2207 - a maior - e sua companheira IC 2163. À direita, galáxia espiral NGC 3190. Créditos: ESO. Clique na imagem para ampliar!
Esquerda: o aglomerado de estrelas conhecido como NGC 3293 (créditos: ESO/G. Beccari). À direita, detalhes da nebulosa de Órion (créditos: ESO/M.McCaughrean et al.). Clique na imagem para ampliar!
À esquerda, uma nebulosa planetária pouco conhecida, chamada de ESO 378-1 (créditos: ESO). À direita, a galáxia distante H-ATLAS J142935.3-002836. A imagem é uma combinação de observações feitas pelos telescópios Hubble e Keck-II (Havaí); créditos: ESO/NASA/ESA/W. M. Keck Observatory. Clique na imagem para ampliar!
Não se limite às imagens postadas aqui! Algumas dicas de páginas com farto material para o seu deslumbramento:
- A coleção completa do ESO;
- O álbum do Hubble;
- O site "Astronomy Picture of the Day" (APOD);
- A página "From the Earth to the Universe" (cuja exposição no Brasil foi chamada de "Paisagens Cósmicas").
Acompanhe a blogagem coletiva da SNCT2015, cujo tema é "Luz, Ciência e Vida", no Gene Repórter e por aqui mesmo.
Veja também a nota do MCTI sobre a ação: SNCT 2015 - Blogagem coletiva divulga tema “Luz, ciência e vida”.
terça-feira, 20 de outubro de 2015
Teve blogagem coletiva na Semana Nacional de C&T 2015!
A Semana Nacional de C&T (SNCT) deste ano ocorreu entre os dias 19 e 25/10. Foi a 12o edição do evento criado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) com o objetivo de aproximar o público dos conhecimentos e novos desenvolvimentos da área. Este ano o tema foi "Luz, ciência e Vida", refletindo o fato de que 2015 foi declarado pela UNESCO o Ano Internacional da Luz (IYL2015, do inglês).
Por sua vez, Poluição luminosa é um dos principais temas do IYL2015, que destaca a luz no ambiente construído pelo homem e - através da iniciativa "Luz Cósmica" da IAU -, a preservação de céus escuros para a observação celeste. Ou seja, trabalhamos desde sempre com o tema da SNCT2015!
No começo do ano, o Roberto Takata, autor do Gene Repórter, cadastrou blogs interessados em participar de uma ação coletiva durante a SNCT2015, a pedido do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), que divulgou a iniciativa em alguns de seus canais de comunicação: SNCT 2015 - Blogagem coletiva divulga tema “Luz, ciência e vida”. Ao menos dez blogs divulgaram textos relacionados à luz durante a semana, viabilizando a blogagem coletiva.
Veja abaixo os links dos textos publicados nos blogs participantes:
- O Leandro Tessler, do Cultura Científica, escreveu sobre as fibras ópticas e a importância dessa tecnologia para nos conectarmos, através da internet, do telefone ou da TV a cabo;
- E, veja só! No texto intitulado "O lado escuro da luz: um luar como este do sertão", o Gene Repórter fala da atração de insetos pela luz e os impactos da iluminação artificial no planeta. Ou seja, da poluição luminosa;
- No blog DNA Cético, Rubens Pazza fala em seu texto "A vida e a luz" sobre o ciclo circadiano e a importância da detecção da luz pelos seres vivos;
- No blog Sonhos do Neuro, o Felipe também escreve sobre as alterações no ciclo circadiano dos seres humanos devido à disponibilidade de iluminação artificial no texto "Luz dentro de casa e o sono que atrasa";
- A bioluminescência, fenômeno responsável pelas luzes dos vaga-lumes, é o tema do texto "SNCT 2015: a luz da vida", que o Wesley Santos escreveu para o "Do nano ao macro";
- O David, do blog "A Porta de Marfim", escreveu "Luz engorda?", sobre a correlação entre o nível de obesidade de uma população e a quantidade de poluição luminosa;
- Este humilde blog publicou o texto "Janelas para o Universo", onde conta um pouco sobre os poucos locais ainda existentes no planeta com condições para a realização de observações astrofísicas na faixa do visível e apresenta a iniciativa "Um Universo de Imagens";
- A página "Astronomia no Zênite" publicou um artigo "Decifrando a luz", sobre espectroscopia;
- O blog "Café na Bancada" publicou uma série de postagens. Em "Brilha, brilha, Escorpiãozinho…", Henrique Neves escreveu sobre a luz negra e contou que ela é usada para encontrar escorpiões! Em "Ciclos, ritmos e você – Apresentando seu relógio biológico", o mesmo autor fala sobre ciclo circadiano e cronobiologia de um modo geral. Natália Tascher é a autora do texto "Me diz…Por que o céu é azul…E os olhos da minha filha também!", a respeito da relação entre a quantidade de melanina e a cor dos olhos humanos. Em "Brilha, brilha, bacteriazinha", Natália fala sobre a bioluminescência em bactérias. "Luz, ciência… EVOLUÇÃO!" é a contribuição de Luiz Almeida. O texto conta sobre a importância do aparecimento de olhos nos seres vivos para a evolução da vida no planeta;
- O Dulcidio, do blog "Física na Veia!", escreveu sobre a natureza da luz, contando como o conhecimento acerca de sua dualidade onda-partícula foi construído ao longo do tempo, baseado principalmente nos trabalhos de Mawell e Einstein. Luz: onda ou partícula?
Como podemos notar, vários textos falaram sobre a importância do ciclo circadiano e, de maneira direta ou indireta, de poluição luminosa.
Agradecimentos ao Roberto Takata por todo o trabalho de organização da blogagem coletiva!
Nas redes sociais, as atividades da semana foram indexadas principalmente com as hashtags #sintonizeciência e #SNCT2015.
Veja abaixo o vídeo oficial de divulgação da SNCT2015.
domingo, 27 de setembro de 2015
Os perigos da poluição luminosa - reportagem da DW
É muito raro encontrar boas matérias em português sobre poluição luminosa. O vídeo abaixo é uma importante exceção e foi produzido pela agência alemã Deutsche Welle (DW), para a sua programação voltada ao público brasileiro.
A reportagem, de Maurício Cancilieri e Ceci Leal, é bastante completa: explica o que é poluição luminosa, seus impactos, mostra soluções de iluminação e pesquisas para evitar aumentar o problema. E tudo isso em menos de cinco minutos! Não deixe de ver!
A reportagem foi feita para o o programa Futurando, transmitido em emissoras públicas brasileiras parceiras da DW. Todas as edições também podem ser assistidas diretamente da página da DW.
O Futurando também fez uma matéria interessante sobre novas tecnologias para evitar o ofuscamento por faróis de carro (sim, isto também é poluição luminosa...): Tecnologia "Matrix" revoluciona faróis de carros.
Link original para a matéria sobre PL: Os perigos da poluição luminosa - O excesso de luz artificial pode prejudicar a saúde do homem e o meio ambiente.
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Página de notícias sobre Poluição Luminosa (PL), mantida pela astrofísica Tânia Dominici.
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