sábado, 16 de novembro de 2013

Na adversidade, uma oportunidade...

Seguindo uma resolução de Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), até o final de janeiro de 2014 a responsabilidade sobre a iluminação pública passará a ser dos municípios, e não mais das distribuidoras de energia elétrica. As cidades com menos de 50 mil habitantes terão até o final de 2014 para se adaptar (prazo que poderia vir a ser estendido até 2016).

O assunto tem causado apreensão nas prefeituras, principalmente pela falta de qualificação e estrutura técnica para cuidar dos postes, luminárias, lâmpadas e de sua manutenção. Além disso, é claro, preocupam os possíveis impactos econômicos negativos associados a essa mudança.

Passado o período de transição, as prefeituras deveriam aproveitar esta responsabilidade adicional como uma oportunidade para racionalizar a iluminação das cidades, minimizando os impactos ambientais, econômicos e na saúde humana causados pela poluição luminosa. Os municípios certamente têm mais condições de atender às especificidades locais, como a necessidade de proteger reservas naturais, observatórios astronômicos, de levar iluminação para zonas rurais e fomentar o turismo científico e ambiental.

Apesar de um possível impacto econômico negativo em primeiro momento, a longo prazo, se as cidades optarem por luminárias e lâmpadas eficientes e corretamente instaladas, os gastos tendem a diminuir, uma vez que a iluminação racional economiza energia elétrica e implica em menores gastos com manutenção. Ainda que a tendência de terceirização do serviço de iluminação se concretize, os municípios podem exigir nos processos de licitação que as empresas concorrentes sejam comprometidas com a implantação de pontos de iluminação racionais e não poluentes.


As imagens acima mostram a cidade de Monte Pátria, no norte do Chile, antes (esquerda) e depois (direita) de racionalizar a sua iluminação externa. Note que o resultado é a menor quantidade de luz direcionada para cima e uma visão mais clara das ruas da cidade. A redução do consumo de energia com a reestruturação foi de cerca de 60%, resultando em uma economia em torno de 150 mil dólares ao ano. Imagens obtidas em: http://spie.org/x42167.xml.

Hoje, estima-se que cerca de 30% do que pagamos pela a iluminação externa esteja sendo desperdiçado através da poluição luminosa, iluminando inutilmente o céu. Assim, da situação aparentemente adversa que os municípios enfrentarão a partir de 2014, pode surgir uma importante oportunidade para criar cidades mais sustentáveis e com melhor qualidade de vida para os seus cidadãos.


As prefeituras terão agora a oportunidade de planejar a iluminação de acordo com as especificidades locais e, quem sabe, podem ajudar a população a retomar o contato com as belezas do céu noturno (Crédito da imagem obtida no Observatório do Pico dos Dias: Tânia Dominici).



Update em 03/11/2014: Reportagem do Jornal Nacional diz que municípios têm até 31 de dezembro de 2014 para assumir a iluminação pública e a Aneel afirma que não mais prorrogará o prazo.

domingo, 4 de agosto de 2013

Uma tocante animação sobre poluição luminosa

O que aconteceria se as luzes da cidade desaparecessem misteriosamente e, em uma certa noite, as pessoas pudessem ver o céu estrelado como ele realmente é? A animação abaixo, com um poético desenvolvimento do tema, foi produzida por Olivia Huynh e disponibilizada em sua conta no Vimeo




Via @darkskyscott e seu blog sobre astronomia e poluição luminosa,  Visible Suns.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

As tartarugas marinhas e a poluição luminosa: aproveite o Dia Internacional das Tartarugas para entender o problema

Circula pela internet que hoje, dia 23 de maio, comemora-se o Dia Internacional das Tartarugas (World Turtle Day), promovido pela organização não governamental americana ATR. É uma ótima oportunidade para discutir ações de preservação do meio ambiente que garantam a sobrevivência desses animais.

Para as tartarugas marinhas, em particular, um dos maiores obstáculos é a poluição luminosa, causada pela utilização irracional da iluminação artificial. Esses animais dependem de um ambiente escuro para se locomoverem. O problema começa com as fontes de luz alterando o comportamento das fêmeas na seleção dos pontos de desova na praia e dificultando o retorno  delas para o mar.

Quando os filhotes nascem, naturalmente buscam se mover no sentido contrário dos ambientes escuros e vão em direção ao oceano, sutilmente iluminado pelas estrelas e a Lua em condições ambientais ideiais. Com a presença de luzes artificiais na praia, as tartaruguinhas não conseguem diferenciar os ambientes, resultando em desorientação. Se elas demoram a alcançar o mar, ficam expostas a predadores e podem morrer desidratadas. Também existem relatos desses animais sendo atropelados  ao tentar atravessar avenidas próximas às praias, ou invadindo residências e restaurantes ao serem atraídas pela iluminação artificial.



As tartarugas marinhas, recém nascidas, são atraídas pelas luzes artificiais ao invés de se deslocarem na direção do mar. A poluição luminosa é uma grande ameaça à sobrevivência desses animais (imagem: NIH).


No Brasil, o projeto Tamar tem trabalhado pela aprovação de leis que regulamentem a iluminação artificial nas áreas de desova, com sucesso. A instituição também oferece orientações de como iluminar corretamente. Veja um exemplo na imagem abaixo e clique aqui para baixar a cartilha completa. Note que, ainda que direcionadas à questão das tartarugas marinhas, essas recomendações são válidas para combater a poluição luminosa em qualquer local, no sentido de evitar o desperdício de energia elétrica, iluminando desnecessariamente o céu e impedindo a observação das estrelas...


Parte do material disponibilizado pelo projeto Tamar, com orientações para a iluminação em áreas de desova das tartarugas marinhas. Faça o download da apostila completa.

O vídeo abaixo também ajuda a entender a questão. Lembre-se que no YouTube é possível incluir legendas e traduzi-las para o português.




Veja aqui informações adicionais sobre os impactos ambientais da poluição luminosa.


Imagem obtida em https://www.facebook.com/SeaTurtleOP

Via @IDADarkSky.



segunda-feira, 13 de maio de 2013

O seu telefone celular pode ajudar a estimar a poluição luminosa!

Foram lançados dois aplicativos para smartphones direcionados à avaliação da poluição luminosa: o Dark Sky Meter, para iPhone, e o Loss of the Night, para quem possui aparelhos com sistema operacional Android.

Embora sejam bastante diferentes, o objetivo dos dois aplicativos é o mesmo: oferecer uma ferramenta para que qualquer cidadão possa contribuir para estimar a poluição luminosa em todo o planeta. Os aplicativos estão em inglês, mas são de fácil utilização. Descrevemos abaixo cada uma das opções. 

Dark Sky Meter

É oferecido em duas versões: o Lite, gratuito, e o Pro, que custa 3,99 dólares na Apple Store. O aplicativo foi desenvolvido para os iPhones 4, 4S e 5.

Ele funciona como o Sky Quality Meter, aparelho para medir o brilho de fundo do céu produzido pela Unihedron e que já descrevemos aqui. Para fazer a medida são necessários dois passos: no primeiro, o usuário tampa a câmera do iPhone para fazer uma calibração. Na sequência, ele aponta a câmera para o céu, no ponto acima de sua cabeça (zênite), e realiza a medida.

O Dark Sky Meter estima o brilho de fundo do céu de modo semelhante ao SQM-L, que descrevemos anteriormente. 

Na versão Lite, o aplicativo diz quantas vezes o céu daquele local é mais brilhante do que deveria ser, enquanto que, na versão Pro, o resultado também é dado em magnitudes por segundos de arco ao quadrado (tal como o SQM-L). Em ambos os casos, o usuário pode informar a cobertura de nuvens durante a medida e enviar os seus resultados para os servidores do projeto. Assim, as informações são disponibilizadas para pesquisas científicas e seus dados são incluídos em um mapa, que pode ser consultado dentro do próprio aplicativo, na versão Pro.


Todas as medidas de brilho do fundo do céu enviadas através do Dark Sky Meter Pro são disponibilizadas em tempo real em um mapa, dentro do próprio aplicativo. Essas medidas refletem a incidência da poluição luminosa em diferentes partes do planeta. Imagem obtida da página do projeto.

Atualização em 03/06/2013: agora as medidas obtidas com o Dark Sky Meter podem ser visualizadas, em tempo real e mesmo por quem não tem o aplicativo, através desta página.



Os resultados de todas as medidas feitas com o Dark Sky Meter agora podem ser consultados na página do projeto: http://www.darkskymeter.com/map/, mesmo por quem não tem acesso ao aplicativo.



Loss of the Night

O "Loss of the Night" é um grupo de pesquisas interdisciplinares sobre poluição luminosa, com sede na Alemanha, e o aplicativo para celulares com Android é um dos projetos associados. Ele trabalha com a mesma ideia do projeto Globe at Night, orientando o  usuário a contar estrelas em certas regiões do céu. Os resultados são enviados para uma central, sendo posteriormente utilizados nas pesquisas científicas e em trabalhos de conscientização pelo uso racional da iluminação artificial.

"Faça parte de um projeto científico mundial que mede a poluição luminosa". O Loss of the Night é um aplicativo para smartphones que rodam Android.

Baseado na sua localização geográfica, o aplicativo indica regiões do céu a serem observadas. Durante a noite, basta apontar a câmera para cima e um círculo vermelho com uma flecha surgirá na tela (veja a figura abaixo). Movimente o aparelho na direção da flecha. Quando chegar à área correta, o círculo se tornará amarelo e o aplicativo perguntará se o usuário consegue enxergar a estrela naquele local. O processo se repetirá sete vezes e, ao final, os resultados são enviados via internet. O usuário também pode informar sobre a cobertura de nuvens no momento das observações.



 O Loss of the Night mostra um círculo vermelho com uma flecha para orientar o usuário a encontrar a região do céu a ser observada. Quando ela é encontrada, o círculo se torna amarelo e o aplicativo questiona se é possível ver uma estrela naquela região do céu. A sequência deve ser repetida sete vezes antes do envio dos resultados. Imagens obtidas do Google Play.


No vídeo abaixo, o Dr. Cristopher Kyba, um dos pesquisadores envolvidos, fala sobre ciência cidadã e descreve as motivações para o desenvolvimento desse aplicativo. Está em inglês, mas lembre-se que durante a exibição no YouTube é possível incluir legendas e traduzi-las para português.





Caso tenha algum desses aparelhos, não deixe de instalar os aplicativos e ajudar a estimar os impactos da poluição luminosa! Ainda não sabe o que é esse tipo de poluição e as suas consequências para a nossa vida? Descubra fazendo o download da apostila e visitando a nossa página sobre o assunto.


No twitter, siga @DarkSkyMeter@VerlustderNacht.


Agradecimentos especiais à colaboradora involuntária, Paulínea, que cedeu seu smartphone com Android para testes do aplicativo seguindo altos padrões de metodologia científica...
terça-feira, 30 de abril de 2013

Última oportunidade de participar da campanha Globe at Night 2013 (29 de abril a 8 de maio)!

A última etapa da campanha Globe at Night 2013 está em andamento até o dia 8 de maio. Como explicamos aqui, o objetivo é engajar a população mundial na pesquisa para avaliar a poluição luminosa em diferentes partes do planeta.

Aproveite as belas noites de outono para fazer a sua contribuição! Durante os próximos dias, a constelação a ser identificada no Hemisfério Sul é o Cruzeiro do Sul.

Constelação do Cruzeiro do Sul (centro da imagem), fotografada no Observatório do Pico dos Dias (T. Dominici). A nuvem escura, de absorção, é popularmente conhecida como 'saco de carvão' e pode ser vista a olho nu de locais distantes da iluminação artificial.


O Globe at Night tem um aplicativo online de fácil utilização para o registro de suas observações. Está em inglês, mas é muito simples de entender. Descrevemos abaixo cada passo.

Passo 1: Insira o local e a data das suas observações


Passo 2: Informe onde foram feitas as suas observações. Ao entrar na página, o aplicativo pedirá a sua permissão para identificar a localização (baseado nos dados de sua conexão). Se for a mesma da observação, permita e confirme. Caso contrário, localize-a no mapa.

Ainda no Passo 2: Se puder, descreva no quadro o local das observações. Por exemplo, se foi em uma cidade grande ou área rural.


Passo 3: Clique nos quadrinhos até encontrar um mapa que represente a sua observação. Por exemplo, se você só consegue ver quatro estrelas do Cruzeiro, deve selecionar a imagem  que indica '< 3.5 mag'.


Passo 4: Informe a cobertura de nuvens. O céu estava completamente limpo? Nublado? Clique no quadro que melhor represente a condição de observação. Na janela abaixo, coloque informações complementares, se considerar necessário.


Passo 5: Se você for um entusiasta dos céus escuros, pode eventualmente ter um equipamento como este que mostramos aqui, o SQM. Nesta parte do formulário é possível informar as suas medidas. Se não tem o equipamento, ignore e vá para o passo 6...


Passo 6: Com o relatório preenchido, clique em 'Submit Data' e envie as suas informações. Está feito! Você ajudou a avaliar os impactos da iluminação artificial no planeta...



Situação atual da participação brasileira no projeto de ciência cidadã Globe at Night, campanha de 2013. A nossa última chance de colaborar para as medidas deste ano termina em 8 de maio. O mapa completo das contribuições pode ser visto aqui.


No twitter, acompanhe @GLOBEatNight e use a hashtag #GaN2013.


quinta-feira, 18 de abril de 2013

Calgary, no Canadá, aprova nova regulamentação contra a poluição luminosa

Na segunda, dia 08/04, a cidade de Calgary, no Canadá, aprovou por unanimidade uma nova regulamentação para iluminação externa, visando o controle da poluição luminosa.

A medida é um reconhecimento ao fato de que a má iluminação representa um gasto desnecessário de recursos financeiros e está afetando as atividades do Observatório Astronômico de Universidade de Calgary.

A nova regulamentação implica em requerimentos mais exigentes para novos pontos de iluminação e na obrigatoriedade de planos de iluminação detalhados em solicitações de licenças para novas obras. Antigos pontos de iluminação não precisam ser modificados imediatamente e devem ir se adequando conforme forem sendo substituídos, ao fim de sua vida útil.

A nossa ideia para as cidades nos arredores do Observatório do Pico dos Dias é bastante semelhante: exigir que novos pontos de iluminação sejam racionais e ir adequando os antigos conforme tiverem que ser trocados. É importante notar que um eventual maior investimento em luminárias e lâmpadas mais modernas e menos poluentes é compensado pela economia em manutenção, consumo de energia elétrica e maior vida útil. 

Imagem recente de Calgary à noite a partir da Estação Espacial Internacional (ISS). obtida pelo astronauta canadense Chris Hadfield e  compartilhada em seu twitter,  


Outra visão das luzes de Calgary a partir do espaço (NASA Geophysical Data Center, http://www.blue-marble.de/nightlights/2012). Tudo isso é luz desperdiçada, que não está ajudando a população a se locomover com segurança, agride o meio ambiente e ainda impede a observação das estrelas...



Acesse as notícias originais (em inglês):

Veja também: RASC Calgary Centre, com informações sobre poluição luminosa e as ações de combate na região de Calgary.



quinta-feira, 4 de abril de 2013

Mais um observatório astronômico fechado devido à poluição Luminosa - Zijinshan Observatory

O Zijinshan, também conhecido como Purple Montain Observatory (Nanjing, China) foi o primeiro observatório e instituição de pesquisa astronômica construídos na China durante o século XX. A sua construção teve início em 1928 e as operações foram iniciadas em 1934.

No final de março, foi anunciado o encerramento das operações noturnas do observatório. A principal causa é a poluição luminosa, sendo que alguns pesquisadores relatam que não é mais possível sequer ver a Via Láctea no sítio do observatório (Observatory inactive due to light pollution). Segundo a reportagem, outros observatórios chineses estão seriamente ameaçados. Durante os anos de operação, vários asteroides e cometas foram descobertos no Zijinshan Observatory, que também mantém equipamentos e linhas de pesquisa em radioastronomia.

Purple Mountain Observatory, localizado em Nanjing (China), cujas operações noturnas foram encerradas devido à poluição luminosa. Imagem de Julius Rabl via Wikipedia


É muito triste ver mais uma infraestrutura de pesquisa astronômica vencida pela iluminação artificial irracional. Veja aqui a página do observatório (em inglês) e a notícia completa sobre o fim das operações devido à poluição luminosa.

Isso não precisa acontecer: a poluição luminosa pode ser evitada e até revertida. Além disso, áreas em torno de locais especiais como reservas naturais e observatórios astronômicos devem ser protegidas por legislações ou regulamentações que orientem os moradores em seus arredores no sentido de não produzir poluição luminosa. 


"Os locais privilegiados para a observação astronômica constituem um bem escasso no planeta e sua conservação representa um esforço mínimo em comparação com os benefícios que surgem do conhecimento e do desenvolvimento científico e tecnológico. A proteção da qualidade dos céus nestes locais tão singulares deverá constituir uma prioridade nas políticas de preservação do meio ambiente e científicas de caráter regional, nacional e internacional. Medidas e disposições extremas devem ser feitas de modo a permitir a proteção destes locais dos efeitos nocivos da poluição luminosa, radio-elétrica e atmosférica."





Página de notícias sobre Poluição Luminosa (PL), mantida pela astrofísica Tânia Dominici.

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